SEMPRE MÚSICA . . .

quinta-feira, 3 de abril de 2008

[] Dolores Duran [1930=1959]

“Dá-me Senhor uma noite sem pensar, dá-me Senhor uma noite bem comum...
Uma só noite em que eu possa descansar, sem esperança e sem sonho nenhum...
Por uma noite assim, posso trocar, o que eu tiver de mais puro e mais sincero...
Uma só noite em que eu possa não pensar,
Que não devia esperar e ainda espero...”


Bom, por estes versos de “Noite de Paz”, já dá para se ter uma idéia de quem foi Dolores Duran, e qual o fio condutor de sua produção artística.

Para entendermos melhor as composições de Dolores, é preciso ter em mente a época e o local em que ela viveu, pois isto é fundamental para a criação de todo artista, seja lá em que departamento; música, literatura, artes plásticas e tudo o mais que se queira.

Que caminhos trilhou esta menina, nascida Adiléa da Silva Rosa, em 07 de junho de 1930, na Rua do Propósito, no bairro da Saúde, na cidade do Rio de Janeiro? Como foi sua infância, com quem viveu, o que viu e quais seriam seus sonhos... Teve uma febre infecciosa quando pequena, o que lhe causou os problemas cardíacos na idade adulta.

Aos 10 anos de idade canta no programa "Calouros em Desfile" do famoso Ary Barroso, na Rádio Tupi. Estava se formando a época de ouro do rádio, o sonho da maioria de pessoas com veleidades artísticas, de sucesso, fama e fortuna, coisas que nem sempre caminham de mãos dadas.


É sabida e famosa a aversão que Ary Barroso sempre nutriu por música estrangeira, era refratário às coisas vindas de outros lugares, principalmente no departamento musical, o que fica muito bem explicitada em suas composições ufanistas, das quais - talvez – a “Aquarela do Brasil” seja a síntese.

Pois bem, Adiléa, que ainda não era Dolores, e muito menos Duran, foi a primeira colocada, interpretando “Vereda Tropical”, vestida de mexicana, bolerão famoso na época, que ela cantou em português e espanhol.

Aliás, desde sempre, ela tinha uma facilidade fora do comum em reproduzir com perfeição músicas em francês, espanhol, inglês e italiano, o que mais tarde,quando cantava pelas boates famosas de Copacabana, lhe valeria um elogio da já respeitada Ella Fitzgerald, que assistiu algumas apresentações dela e disse ser a interpretação de “My Funny Valentine” de Dolores, a que ela mais gostava.

Pelo menos, é isto que consta no baú de elementos biográficos de La Duran...

Ainda era adolescente quando seu pai morreu e Adiléa teve que ir à luta e trabalhar para ajudar sua mãe a sustentar a família. Foi atriz de teatro e de novelas de rádio, como o "Teatro da Tia Chiquinha" outro campo de expressão artística bastante respeitado e concorrido.

Aos 16 anos, adota o nome artístico de DOLORES DURAN, pois já estava trabalhando como crooner de orquestra e cantando nas boates cariocas.

Então, estamos na boemia do Rio de Janeiro, no final dos anos 40, onde a “estética” vigente era a celebração da solidão, do abandono, do amor impossível, das relações adúlteras, da dor, saudade e todos os sofrimentos possíveis que o tal de amor proporciona às pessoas que dele usufruem...

E como crooner, Dolores tinha que cantar sucessos internacionais, o que fez com que ela desenvolvesse mais ainda seu talento natural de cantar em outros idiomas.

O cenário, era aquele que conhecemos de filmes nacionais, homens e mulheres bebendo seu uísque, fumando cigarros estrangeiros, “Pall Mall”, “Pullman”, “Camel” e os nossos “Columbia” e “Astoria”, meus conhecidos pois eram as marcas fumadas pelas minhas tias, que queriam ser iguais à atriz mexicana Maria Félix...

Dolores inicia a gravar em 1952, e sua vida de compositora começa em 1955, em parceria com um jovem e desconhecido músico chamado Antônio Carlos de Oliveira Jobim, com “Se é Por Falta de Adeus”, que foi gravada por Dóris Monteiro; quem primeiro gravou Dolores, portanto.

Neste ano de 1955, Dolores é escolhida pelos críticos de jornais como a “melhor crooner do ano”, e cantava nas boates e melhores dancings do Rio, como o "Baccarat", “Casablanca”, “Acapulco”, “Montecarlo” e “Vogue”. Neste mesmo ano casa-se com o radioator e compositor Macedo Neto, casamento que acaba três anos depois, sem filhos.

Sua parceria com Tom Jobim rendeu clássicos da nossa música, como “Por Causa de Você” e “Estrada do Sol”. Nesta época Dolores se apresenta com freqüência no Uruguai e Argentina, países que sempre receberam muito bem o nosso samba-canção.

Em 1957, ela já era bastante conhecida como letrista e Tom veio mostrar para ela a melodia que havia composto e Vinícius de Moraes posto os versos em “Por Causa de Você”. Quando Dolores ouviu a melodia, pegou um lápis e praticamente “psicografou” uma outra letra, diferente da que Vinícius havia escrito.

Tom ficou meio constrangido, mas Dolores ligou imediatamente para Vinícius para mostrar os novos versos e o poeta concordou que os versos de Dolores eram bem melhores e mais adequados que os dele...e assim foi. São de Dolores as palavras
que conhecemos de “Por Causa de Você”:

“Ah, você está vendo só, do jeito que eu fiquei, e que tudo ficou? Uma tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou...”


Em 1958, Dolores, Nora Ney e Jorge Goulart junto com o Conjunto Farroupilha fizeram uma turnê pela União Soviética; acabada a turnê, Dolores se separou dos colegas e resolveu ficar uma temporada em Paris, morando e cantando durante 1 ano; volta ao Brasil somente em 1959.

É neste ano que Dolores compõe a música que mais a identifica junto ao público, “ A Noite do Meu Bem”, um mês antes de morrer.

“Hoje eu quero a rosa mais linda que houver, quero a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem...hoje eu quero paz de criança dormindo, e o abandono de flores se abrindo, para enfeitar a noite do meu bem.
Quero a alegria de um barco voltando, quero a ternura de mãos se encontrando, para enfeitar a noite do meu bem...Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo, eu quero toda a beleza do mundo para enfeitar a noite do meu bem...
Ah...como este bem demorou a chegar, eu já nem sei se terei no olhar, toda a ternura que eu quero lhe dar...”

Dolores não tinha exatamente a saúde de uma atleta, e nunca levou muito a sério as recomendações médicas, para ficar atenta a seus excessos de uísque e cigarro.

Na verdade, Dolores era a personagem de suas composições, era boêmia, sofria por amor, bebia para esquecer, e bebia mais ainda para celebrar um novo e promissor amor.

E tudo isso, com muito cigarro, muito vestido de tule ou tafetá e extrato francês, como mandava a elegância da época. Isto era obrigatório para as mulheres que queriam ter um “it”...

Seria “Arpège” ou “Heure Intime”. Ou quem sabe “Fleur de Rocaille” ?

Dolores escrevia sempre, compulsivamente, em qualquer lugar. Uma madrugada, depois de haver cantado no “Cangaceiro”, passou pelo “Little Club”, que era do mesmo dono, para encontrar com os amigos e continuar a noitada e mais alguns drinks antes de dormir.

Tinha a mania de rabiscar seus versos com lápis de sobrancelhas, em guardanapos e até em maços de cigarros; e foi assim, neste cenário, quase o dia amanhecendo, que nasceu seu outro grande sucesso “Fim de Caso”.

Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar, há um adeus em cada gesto e em cada olhar, mas nós não temos é coragem de falar...”

No dia 24 de outubro de 1959, depois de ter cantado a noite inteira no “Little Club”, dar uma esticada no "Clube da Aeronáutica" e ainda no "Kit Club", Dolores chega em casa de manhã cedinho, quase às 7 horas, e diz para empregada:

“Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer...”

Nunca mais acordou.


3 comentários:

Adriana disse...

Cresci ouvindo minha mãe cantar as músicas dela.E seu new look esta cada vez mais bonito.Um blog de qualidade!

BANDEIRAS disse...

Já ouvi muito A Dolores.
" a noite do meu bem " é demais.
Parabéns !!!!
Bjs

Anônimo disse...

estrada do sol é uma das + belas músicas brasileiras...

Laika