SEMPRE MÚSICA . . .

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

[] Ornella Vanoni, Meio Século de Sucesso

Como um dos eventos para comemorar os 50 anos de uma carreira bem sucedida, Ornella Vanoni escolheu fazer um show na “Piazza Del Duomo”, bem no coração da sua querida Milão, lugar onde nasceu e viveu toda a sua vida, há 74 anos. O show aconteceu no sábado passado, dia 18, às 21 h. e com entrada grátis.

Porém o lançamento mais esperado da temporada, com toda a certeza é “Più di Me”, seu mais recente cd, escolhido para assinalar as comemorações desta metade de século de uma intensa atividade artística tanto no teatro – onde começou sem nem passar pela cabeça em se tornar uma cantora – como na música.

“Più di Me” é um disco de duetos, onde ela é acompanhada por colegas ilustres como Mina, Gianni Morandi, Gino Paoli, Lucio Dalla, Cláudio Baglioni, Eros Ramazzotti, Jovanotti e Fiorella Mannoia.

Outro motivo para este disco ser tão esperado e ter gerado tantos comentários no mundo artístico italiano, é a inesperada participação de Mina cantando com Ornella uma composição de Andrea Mingardi, “Amiche Mai” [amigas nunca!]...

Sem sombras de dúvidas, um título irônico e de duplo sentido, tendo-se em conta, que a imprensa e o público em geral sempre consideraram as duas como ferrenhas rivais, e elas sabiamente ou por pura falta de interesse, nunca confirmaram nem desmentiram esta fama.

É mais ou menos o que acontecia aqui no Brasil nos anos ’50, com Emilinha e Marlene. Na Itália, o público adulto divide-se basicamente entre os que gostam de Mina e os que preferem Ornella e vai mais longe a coisa... parece que os discos de uma não podem conviver bem com os discos da outra na prateleira de alguém...

Talvez por serem dois nomes dos mais respeitados e de carreiras mais regulares após tantas décadas de altos e baixos na indústria fonográfica, crises, modismos, movimentos artísticos e correntes musicais, Mina e Ornella, cada uma à sua maneira, traçaram sua trajetória e entraram para a história da música popular italiana de uma maneira definitiva.

Mesmo as pessoas que insistem na presumida “inimizade” entre elas, esquecem que Ornella compareceu várias vezes ao programa em horário nobre que Mina conduzia na RAI, e onde era a estrela absoluta.

Outra coisa que ajudou muito a perpetuar esta “lenda urbana italiana”, é que são duas mulheres elegantes, refinadas, de talento indiscutível, personalidades fortes e de uma grande cultura em literatura e artes plásticas.

Ornella é bastante conhecida no Brasil, onde já se apresentou anos atrás e fez uma aparição no “Fantástico” num clipe excepcionalmente bonito “for export”, velejando por Angra dos Reis, cantando “Stupidi”, naquele cenário ensolarado que nos orgulhamos de ter.

Além disso, há mais de trinta anos atrás, mais precisamente em 1976, ela gravou aquele famoso disco com Toquinho e Vinicius de Moraes, "La Voglia, La Pazzia, L'Incoscienza e L'Allegria" e que se tornou um clássico obrigatório em qualquer show que ela faça, seja lá em que parte do mundo ela esteja.

Mina, que vive em Lugano, na Suíça há quase 40 anos, gravou sua participação no dueto de lá e a música que cantam juntas, “Amiche Mai”, foi escolhida por ela ...

Verdade ou mentira, exageros ou não, o resultado será bom para os fãs tanto de uma como da outra, e segundo a imprensa italiana, o disco está disponível desde sexta-feira, dia 17 de outubro de 2008. Todos sairão ganhando.

Parabéns, Ornella, por estas cinco décadas de tanta música, tanta poesia, tantas histórias contadas, cantadas e vividas de grandes amores, imensas separações e de tantos sonhos e alegrias para todos.

Complimenti !



sábado, 18 de outubro de 2008

[] Enya, A Estela Invisível

“Desta vez canto a beleza do inverno”

É chamada de “a cantora invisível”, porque apesar de seus 20 anos de carreira e mais de 70 milhões de discos vendidos, Enya – irlandesa puro-sangue, cujo nome verdadeiro é Eithne Patricia Ní Bhraonáin, nunca fez um show ou um concerto.

O que é um luxo num setor em crise a que poucos podem se permitir, assim como poucos podem lançar um disco em um evento num palácio “ottocentesco” às margens do rio Tamisa, com um ingresso custando 350 libras esterlinas [quase R$ 1.400,00] com uma infinidade de esculturas de gelo e neve artificial nos jardins.

Nunca se viu uma foto indiscreta dela nos jornais, nem se tem notícia de algum ataque de estrelismo ou caprichos de celebridade...

Estreou no mundo musical através de uma trilha sonora, e mais tarde recusou-se a fazer as músicas para “Titanic”, pois seria uma parceria e “em parceria você nunca tem o controle total do produto musical final”.

Recusou o convite para fazer um dueto com Pavarotti, além de diversos outros duetos com colegas famosos... “mas o que tem a ver Enya e Pavarotti juntos?”

Ela gasta 250 mil euros anuais para manter sua privacidade, no castelo de Manderlay, no Condado de Dublin. Para Enya, sucesso e fama são duas coisas distintas. Ao contrário de tantos outros, para ter sucesso ela nunca precisou de fama.

“Sou uma pessoa de sorte”, declarou ontem durante o lançamento de “And Winter Came...” (E Chegou o Inverno...) que deverá estar no comércio no dia 7 de novembro. “Sou música, e prefiro me comunicar através dela”.

“O inverno é minha estação preferida. A natureza se torna mágica, existe um silêncio surreal, é o período em que trabalho melhor. No inverno consigo me concentrar... o inverno me inspira”

Seu nome de batismo Eithne, é a versão feminina de
Aidan, que significa “fogo”, e pronuncia-se “Ê-nia”. Escolheu usar esta ortografia “pseudo-fonética” na carreira artística de modo que pudesse ser reconhecida pelo seu próprio nome, mas evitando os erros de fonética.

Nasceu em 17/05/61 no povoado de Dobar, na Região de Gweedore, Condado de Donegal, à noroeste da República da Irlanda. Seus pais participaram de um grupo de danças típicas e seu pai Leo, hoje em dia é dono de um “pub” “Taverna do Leo”. Sua mãe, Baba, sempre foi professora de música na escola local.

Enya é a sexta filha numa família de 9 irmãos, onde os mais velhos formaram um grupo musical chamado “Clannad”, de música celta e com um som nostálgico, sombrio e etéreo como se fosse um pouco o rascunho da futura new-age, e que começou a ser conhecido aqui no Brasil no final dos anos ’70, onde ela ingressa tocando teclados e fazendo vocais de apoio.

Em 1982, sai do “Clannad”, muda-se para Dublin e inicia carreira solo nos moldes que conhecemos... Agora que o novo disco está pronto, Enya está em busca de novas aventuras. Talvez uma trilha sonora, se aparecer um projeto adequado e também não exclui a possibilidade de um show.

“É preciso apenas encontrar a fórmula certa... quanto mais o tempo passa, mais as pessoas ficam exigentes e esperam por milagres... não queremos desiludi-las...”

Fonte // matéria de autoria de Paola de Carolis, no caderno “Spettacoli” do jornal italiano “Corriere Della Sera", na sua edição de 16/10/2008.



terça-feira, 14 de outubro de 2008

[] Ça C'est Paris ! !

Pois é, meus amigos Odilon e Otávio voltaram de umas feriazinhas mixurucas passadas entre o Vale do Loire e Paris... Com certeza um tédio, né?

E como sempre acontece, me trouxeram de presente o que eles sabem que eu mais gosto: discos, discos e discos. Cd’s excelentes e até bastante raros, principalmente aqui no Brasil, mesmo em megastores que vendem discos importadas...

“Dalida – Sus Mas Grandes Éxitos em Español”...apesar de ter nascido no Cairo, Egito, e ter sido uma artista do mundo inteiro, Dalida foi morar em Paris desde a metade dos anos ’50, e até hoje é um símbolo musical desta cidade que parece acolher tão bem todas as manifestações culturais, principalmente a musical.

Neste disco, como o nome diz, ela canta alguns de seus maiores sucessos em espanhol, o que além de ser uma curiosidade, mostra a competência e o talento desta artista tão apaixonada pelo amor, e uma mulher tão contraditória que justamente por causa do amor, decidiu acabar com a própria vida em 1978... O cd tem uma produção cuidadosa, com uma belíssima fotografia na capa, um encarte com várias fotos dela ao lado de artistas e personalidades da França, como Charles Aznavour, Brigitte Bardot, Nana Mouskouri, Maurice Chevalier, Ives Montand...

São fotografias que documentam apresentações e jantares dela, ao lado de colegas ilustres como Edith Piaf, Alain Delon, Jacques Brel, Marlene Dietrich e Josephine Baker. Ou seja, décadas de uma vida dedicada à arte e ao ofício de emocionar as pessoas.

Outro disco muito gostoso para mim, é o “Parentèses”,de Françoise Hardy, disco recente, de 2006, onde ela canta cada faixa com um colega muito especial, como Alain Delon, Julio Iglesias, Henri Salvador, seu marido Jacques Dutronc, e o genro de Catherine Deneuve, Benjamin Biolay, que é casado com Chiara Matroiani, filha de Catherine e Marcello Matroiani.

Um outro cd duplo, traz no cd 1 Dalida cantando coisas antigas e eternas, como “La Violetera”, “Barco Negro”, e uma deliciosa versão em francês de uma das minhas músicas preferidas, de todos os tempos...daquelas que eu levaria com certeza se tivesse que ir para Marte, Júpiter, ou qualquer lugar absurdo... a música é “Hey There”, originalmente feita para a Broadway, trilha da peça “The Pijama Game”, de 1954.

“Hey There” ficou conhecida mundialmente em disco graças à interpretação de Rosemary Clooney,
e depois, às gravações de Sammy Davis Jr. e Frankie Laine... mais recentemente outros intérpretes gravaram “Hey There” em homenagem a Rosemary Clooney, como Bette Midler e a cantora e compositora canadense Anne Murray, que escreve uma dedicatória emocionada, à lembrança dos seus ídolos de juventude, entre eles Rosemary Clooney com “Hey There”, além de ter sido uma das maiores inspirações para ter se tornado uma cantora..

O cd 2 tem Gloria Lasso, cantando em francês verdadeiras curiosidades raras, como “Strangers in Paradise” e “Ave Maria No Morro”... sim, aquela composta por Herivelto Martins e que se tornou a cara de Dalva de Oliveira.

Como se não bastasse tudo isto, ainda ganhei um box com 4 cd’s, que no título já dá a atmosfera dos discos: “Les Plus Belles Chansons D’Amour Retro”... São 100 músicas, verdadeiros clássicos da história musical francesa, interpretados por gente como Charles Trenet, Juliette Greco, Charles Aznavour, Henri Salvador, Edith Piaf, Yves Montand, Georges Brassens, Jacqueline Françoise...

Estes 4 cd’s vem num box guarnecido por uma capa com uma bela fotografia em tons de sépia, mostrando um casal passeando tranqüilamente num barco a remo, numa atmosfera anos ’40. Merci beaucoup, mesmo.

Paris c’est une blonde!
Ça c’est Paris!


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

[] Maria Vai Com As Outras

De cara devo dizer que nunca tive muita simpatia por críticas escritas em jornais, sobre cultura em geral, especialmente música e as chamadas artes visuais.

Explico. Os tais críticos fazem verdadeiras viagens no texto que escrevem sobre um lançamento em cinema ou DVD, sobre o mais recente disco de Fulano de Tal, ou ainda, sobre uma mostra de pinturas, gravuras ou esculturas ou até mesmo das “instalações” de Beltrano.

Já ouvi muito, muita gente comentar com um certo ar de desdém que o filme tal era até bem interessante, mas somente até a metade, pois a partir daí, o diretor “se perdeu”. Por acaso esta pessoa que comentou é amiga do diretor e sabia das intenções dele para com o filme? Não passa pela cabeça , que talvez a direção e o resultado desejado fossem exatamente estes? Acho uma boa pergunta, sim. O público gostar ou não, é uma outra história, mas dizer que o diretor "se perdeu" é sempre, no mínimo, pretensioso.

Em relação às artes visuais, o delírio aumenta. Começam a traçando perfis psicológicos do autor e da obra, na maioria das vezes, usando expressões batidas e surradas de livros que parecem ser do primeiro semestre de algum curso superior de qualidade duvidosa. E geralmente o resultado final fica parecendo com um laudo psicotécnico elaborado por algum psicólogo de arrabalde.

No campo musical, some-se a isto os modismos...

“Em seu último trabalho, Fulano “revisita” a obra de Cartola, “resgatando pérolas” esquecidas do compositor... com novos arranjos, que “remetem ” ...”

“No show, que acontece no Teatro Musical, ali no "entorno" do Parque das Acácias, Sicrano está bem à vontade e entre uma música e outra, “interage” com o publico”...

Os termos grifados estão no vocabulário atual do pessoal que fala e escreve no jornal, revista e televisão... Virou uma verdadeira praga a falta de imaginação. Lembram da época do “lúdico”, quando todo mundo procurava ansioso o “aspecto lúdico” das coisas? Em qualquer entrevista, os atores falavam da importância do “aspecto lúdico” da peça que estavam ensaiando...

É claro que eu sei que a linguagem tanto escrita como falada, é itinerante, mutável e vai se deslocando com o tempo, mas o que acho curioso, é que parece existir uma comissão de técnicos em lingüística, que determina quais os termos do vocabulário que serão moda no próximo verão, assim como perfumes, comprimento das saias, largura das gravatas, cor de esmalte e assim por diante.

Aí, não posso deixar de achar sem graça e um tanto desinteressante, o fato de todo mundo falar igual, escrever igual, suspirar igual e ter a opinião igual ao colunista da hora e da "tribo" da vez. Tem-se a impressão, muitas vezes, de que os diversos textos, artigos ou coisas que os valham, até foram escritos pela mesma pessoa ou pela mesma equipe, sob a supervisão severa de alguém da moda...

Onde foram parar o estilo pessoal, próprio, facilmente reconhecível por qualquer leitor de memória razoável?

Mas esta é apenas minha opinião
, como leitor e observador de algumas coisas. Não sou jornalista nem colunista de nada. Apenas faço parte desta ciranda moderna, que tem um nome bem da moda: BLO-GOS-FE-RA !... que tal ?

Apenas uma pessoa que lê, ouve e sente falta do tempo em que os tais “manuais de redação e estilo” dos meios de comunicação não pasteurizavam tanto as matérias escritas ou faladas e deixavam seus autores terem mais personalidade e liberdade de expressão.



[ilustração // "I and the village", Marc Chagall]


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

[] Natalie Cole, Still Unforgettable ! !

Felizmente não é apenas mais uma continuação oportunista, como já é comum no mundo artístico, principalmente no mundo musical, ou seja, um artista lança um disco que faz sucesso, e menos de um ano depois, lança um segundo volume, um terceiro, um quarto, X,Y e Z...

Menos mal, quando esta seqüência de lançamentos é bem feita, honesta, assumidamente comercial....sim, é justo, pois afinal a industria do disco deveria viver de vendas, puras e simples.

Mas infelizmente o que se vê na maioria dos casos, são trabalhos lançados em série, descuidados, quase pobres, só mesmo para pegar o ouvinte do disco anterior ainda pretensamente embevecido e satisfeito, para lançar um outro, com as sobras de estúdio, pedaços e restos de músicas que não passaram na primeira seleção...

Em outras palavras, um refugo requentado, com uma capa alegrinha e um texto – quando tem- exaltando o “enorme sucesso” do disco anterior, e que a gravadora “se viu obrigada” a não “privar” o público deste artista de “enorme talento”, e blábláblá...

É chato? É, quase horrível, mas acontece...that’s life, baby...

STILL UNFORGETTABLE, o mais recente disco de Natalie Cole, poderia ser arquivado neste escaninho acima, não fosse uma série de pontos que merecem uma ponderação:

Ela esperou 17 anos para lançar um outro disco
com a atmosfera daquele longínquo UNGORGETTABLE, de 1991, onde ela cantava exclusivamente o repertório do pai, Nat King Cole, que morreu quando Natalie tinha apenas 15 anos.

Mesmo usando praticamente a mesma fórmula, e não há mal nisso, pois tem até um outro dueto com o pai, tecnicamente impecável, numa demonstração de que se pode fazer coisa boa sim. É só se cercar de gente competente e com sensibilidade.

Neste novo disco, Natalie não canta somente os hits do pai, mas sim, clássicos do songbook americano, músicas que estão na memória e nos corações daqueles que gostam do gênero. E eu sou um desses. Portanto, só posso dizer que fiquei muito animado com a produção deste disco e com o conteúdo.

01= walkin’ my baby back home [dueto com nat king cole]
02= come rain or come shine
03= coffee time
04= somewhere along the way
05= you go to my head
06= Nice ‘n’ easy
07= why don’t you do right ?
08= here’s thar rainy day
09= but beautiful
10= lollipops and roses
11= the best is yet to come
12= something’s got to give
13= until the real thing comes along
14= it’s all right with me

Como deu para notar, são canções de grandes autores, como Cole Porter, Johnny Mercer, Jimmy Van Heusen, Harold Arlen e imortalizadas por gente como Billie Holiday, Bing Crosby, Carmen McRae, Frank Sinatra, Tony Bennett e Johnny Ray.

Com uma voz como a de Natalie, impressionantemente cristalina e clara, compositores como os que citei acima e intérpretes como estes grandes nomes, seria quase impossível um disco como este não ser no mínimo excelente. Destaque para músicos, arranjadores e para a produção da própria Natalie.

Procure ouvir, pois com certeza você vai gostar!


terça-feira, 23 de setembro de 2008

[] Experimente !

Acontece com todos nós e não tem como fugir. Você pode até jurar que não, dizer que não liga pra isso, que não está nem aí. Mas o fato é que ao longo de nossa vida – e não importa a idade que tenhamos - todos nós temos uma trilha sonora...

Sim, pode ser até contra a vontade, sem nos darmos conta que os anos foram passando e algumas músicas ficaram. E, mais que isso, insistem em aparecer nos momentos mais inesperados. Seja no trânsito, no supermercado em frente da prateleira de extrato de tomate, ou escolhendo um prosaico peito de frango.

Quando você se dá conta, está cantarolando um trecho ou uma simples frase daquela música que foi sucesso na sua época de colégio... sim, aquela que você e seus colegas ouviam nos churrascos e acampamentos da turma; aquela que o cara que era bom em geometria descritiva sabia tocar no violão.

Às vezes, nem sabemos que temos arquivado na memória um acervo
musical de fazer inveja a todos os MP3 ou 4 ou sei lá mais que número...

Quando você era criança fatalmente registrou algumas músicas que ouvidas na sua casa; ou no rádio, ou na aparelhagem de som da família; nem que seja um simples jingle, você obrigatoriamente tem seus primeiros registros musicais. E à medida que a vida ia desenrolando os caminhos para serem percorridos, novos sons com novas cores foram se instalando na sua mente e no seu coração.

As festinhas, os bailes do colégio, do clube, os aniversários da tia
e aquela dança especial, com o coração batendo mais forte por alguém? Ela estava lá sim. Tinha uma música no ar, que era de todos e para todos, mas naquele momento era só sua. Sua e de quem você escolheu para compartilhar.

Você viajou para algum lugar e quando chegou
na recepção do hotel ou da pousada ou do camping, estava tocando alguma coisa saída de alguma barraca estampada e roupas penduradas no varal...

E os filmes que você viu no cinema ou em casa, no frio, numa sessão da tarde chuvosa, todos eles com uma trilha sonora elaborada de propósito pra te pegar de surpresa e fazer você chorar. Ou dar risada, ou sentir revolta, ou sentir vontade de sair voando espaço a fora e visitar outras galáxias. Mas a música estava lá, firme e forte.

Com toda certeza você já demitiu alguém da sua vida, e provavelmente já recebeu o bilhete azul de alguém. O fato é que todos nós temos músicas que fizeram parte dessas atividades do coração....

Já experimentou fazer uma seleção das músicas mais marcantes de sua vida? É um ótimo exercício que obrigatoriamente vai levar você para uma viagem especial. Seja seletivo, rigoroso mesmo, e liste somente aquelas que estiveram presentes em momentos decisivos e importantes. Alegres, felizes ou tristes e dramáticos, não importa. O único critério é o da importância em sua vida.

Feito isso, faça uma excursão até sua prateleira de discos
e fitas e vá mexendo, vá olhando um por um e vá escolhendo o que importa... depois produza uma fita, um cd ou qualquer outra coisa parecida. E se for o caso, presenteie alguém, amigos, amores do presente, do passado ou do futuro, por que não ?

O resultado é sempre surpreendente; você vai fazer uma viagem muito especial e voltar a tempos já vividos, vai vestir novamente algumas emoções que talvez já nem caibam tão bem assim no seu mundo de hoje.

Mas esta é parte da sua história, e você não pode fingir que não existiu. Pode até arrancar páginas e páginas deste caderno, mas o que foi escrito ali, vai permanecer para sempre.

E isto, você não pode mudar.


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

[] Paula Morelenbaum, Cheia de Bossa.

Já está nas lojas faz alguns dias o mais recente disco de Paula Morelenbaum, “Te-lecoteco Um Sambinha Cheio de Bossa...”.

Na minha opinião de simples apreciador de música, sem compromisso com gravadoras ou veículos de comunicação, a não ser este blog, o disco é muito gostoso de ouvir. Todo ele, do início ao fim.

É um disco pra cima, despretensioso, leve sem ser fútil ou inconsistente, sério na medida certa, a cara do trabalho de um artista brasileiro, mais exatamente, uma cantora carioca. Com tudo o que “ser carioca” possa significar.

Para quem não sabe ou não lembra, Paula é casada com o músico Jacques Morelenbaum e com ele, trabalhou com Tom Jobim durante dez anos, até a morte do nosso compositor, em 1994.

Fazia parte do Quarteto Jobim Morelenbaum, viajando com Tom por este mundo a fora e fazendo parte das gravações dos discos de Jobim, juntamente com o filho dele, Paulo Jobim, e do neto, Daniel Jobim.

Paula já se apresentou fora do Brasil várias vezes, tanto nos Estados Unidos como na Europa, sempre tendo recebido críticas bastante simpáticas da imprensa internacional.

Além de ter no seu currículo os dez anos de trabalho ao lado de Tom Jobim, teve a oportunidade que poucos artistas tiveram, que foi gravar um disco no estúdio da casa do próprio Tom, local privilegiado, cercado de verde por todos os lados, com a natureza exuberante – como sabe ser exuberante a natureza brasileira – e no ar, o canto dos pássaros, coisa que Tom era completamente apaixonado...

Este “Telecoteco”, muito bem produzido, teve o projeto, a pesquisa e a direção artística de Paula, que tem como convidados nomes conhecidos internacionalmente, como o pianista e compositor japonês Ryuichi Sakamoto, o nosso João Donato, Marcos Valle, o grupo de tango novo argentino “Bajofondo”, Léo Gandelman, Chico Pinheiro e, claro, Jacques Morelenbaum.

Numa primeira olhada, as músicas aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, mas são a cara do Brasil das décadas de ’30, ’40, ’50 e ’60. E Paula, sabiamente fez constar desta seleção um clássico do songbook americano , “Love is Here To Stay”, dos irmãos George e Ira Gershwin.

Vejam só o que tem em “Telecoteco”:

01 = Manhã de Carnaval // 1959 = Luiz Bonfá + Antônio Maria.
02 = Não Me Diga Adeus // 1947 = Luiz Soberano + Paquito + João Correa da Silva.
03 = O Samba e o Tango // 1937 = Amado Régis
04 = Love is Here to Stay // 1938 = George + Ira Gershwin.
05 = Um Cantinho e Você // 1948 = José Maria de Abreu + Jair Amorim.
06 = Ilusão à Toa // 1961 = Johnny Alf.
07 = Teleco-Teco // 1942 = Murilo Caldas + Marino Pinto.
08 = Sei Lá Se Tá // 1940 = Alcyr Pires Vermelho + Walfrido Silva.
09 = O Que Vier Eu Traço // 1945 = Alvaiade + Zé Maria.
10 = Você Não Sabe Amar // 1950 = Dorival Caymmi + Carlos Guinle + Hugo Lima.
11 = Ternura Antiga // 1960 = J.Ribamar + Dolores Duran.
12 = Luar E Batucada // 1957 = Tom Jobim + Newton Mendonça.

Como já escrevi antes, é um disco gostoso de ouvir, tem um clima moderno, arranjos bem atuais, contrastando com a atmosfera de décadas passadas, resultando em elegância, inventividade sem perder um milímetro das coisas do Brasil.

Um belo encarte, com todas as letras mais detalhes técnicos completos, e belas fotografias de um Rio de Janeiro “daqueles tempos”...

[@] Veja Paula clicando aqui [] !!


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

[] "O Tango Nasceu Graças Também à Itália"

Esta afirmação é de Carlos Villalba, diretor artístico de um festival itinerante de Tango que está acontecendo no “Auditorium” em Roma. Acabei de ler o artigo da jornalista Manuela Pelati, publicado no jornal italiano “Corriere Della Sera”, edição do dia 11/09/2008.

E como achei particularmente interessante, transcrevo trechos da matéria:

Carlos Villalba trouxe Buenos Aires para Roma, para apresentar a cultura do tango à cidade eterna e teve uma forte sensação de fazer parte da atmosfera italiana.

“Às vezes, caminhando pelas ruas de Roma, me parecia estar ouvindo o castelhano de Buenos Aires”, diz Villalba, embevecido com a similaridade dos dois povos espalhada no ar...

O festival, que iniciou dia 05/09 e vai até 18/09, tem a oferecer uma série de concertos, lições de tango grátis para quem quiser, além de exposições fotográficas e um salão de baile a céu aberto.

As músicas que a cantora Adriana Varela mostrou no palco da sala “Sinopoli”, esquentou o coração de todos os presentes, a ponto de voltar à cena várias vezes para “bis”, sob fortes aplausos.

Adriana Varela tem uma avó italiana e chegar até aqui, é como viver aquele desejo guardado por gerações, de voltar para casa... O sentimento de nostalgia e melancolia tão forte no tango está ligado a história da imigração, pois quem chegava numa nova terra, pensava em ficar só por um tempo, para depois voltar para casa...

Mais de um milhão de italianos foram para Buenos Aires no início do século XX, e muitos deles contribuíram para a invenção do tango.

“A metade do peso cultural do tango, é italiana
. E isto, é muita coisa. Basta citar o nome dos maiores compositores musicais dos primeiros anos de 1900, até a idade de ouro, nos anos ’30 e ’40: Annibal Troilo, Juan D’Arienzo, Osvaldo Pugliesi, Francisco De Caro – apenas para citar alguns – são todos filhos de italianos.

O próprio Astor Piazzolla, tinha seu pai nascido na região da Toscana...”

“Primeiramente, se tocava com flauta, violão e violino, mas depois, a certa altura, apareceu o bandoneon, inventado por um alemão chamado Heinrich Band. Este instrumento é o que mais caracteriza a identidade do tango argentino e foi levado para lá com a imigração alemã”.

É um instrumento muito difícil de ser tocado, pois o músico tem de dividir o cérebro em quatro partes, já que precisa raciocinar em quatro escalas diferentes... por isso é que se diz que o músico que toca bandoneon, é um pouco maluco”

“Com o bandoneon, está formada a “orquestra de tango”, e uma das maiores contribuições quem deu foi Francisco De Caro, filho de um compositor do Conservatório de Milão... Eram os anos ’20 e De Caro renova o tango, apagando todas as conotações com casas fechadas, duvidosas e de sub mundo, e levando-o aos salões elegantes e refinados da época”.

“Naquele tempo, o tango não era uma dança profissional, tinha o caráter apenas social. Ninguém dançava bem... depois, nos anos ’20, graças também aos salões de Paris, o tango tomou novas dimensões e passou a ser visto e sentido de outra maneira”.

Neste festival de Roma, recriei tanto a atmosfera social da época, quanto a atmosfera de hoje... Na “milonga”, que é o local onde se dança, as pessoas vão também para beber e conversar, mas sem jamais esquecer que “fazer festa” significa principalmente, “dançar”.

“Em Buenos Aires o sentimento mágico da milonga transforma as pessoas... por exemplo, um homem mais velho é sempre uma pessoa importante no salão, porque geralmente tem experiência e portanto, estilo e elegância”.

“É um local onde os valores mudam... uma pessoa gorda pode ser um exímio dançarino, e uma mulher bonita pode preferi-lo a um homem simplesmente mais jovem e bonito... são outros os códigos”.

“Aqui no “Auditorium” se pode “viver” o tango; assistir aos espetáculos, ter lições de dança, ver um filme, beber qualquer coisa no bar e falar com os amigos... não sei se isto ajuda a entender a cultura, pois depende de cada pessoa, do quanto ela está aberta às coisas e do quanto ela é culta”.

“Roma e Buenos Aires têm a mesma mistura de coisas positivas e negativas. Além disso, Roma é uma cidade símbolo de passado, de cultura e de toda a história da humanidade... este é um dos motivos pelos quais o romano se sente um pouco orgulhoso e superior”.

“O mesmo acontece com os argentinos.
Sentindo-se europeus e respaldados por um passado cultural, têm o ego muito forte. Além disso, aqui em Roma existe esta maneira de se levar o dia a dia com mil pequenas dificuldades, do mesmo modo que os argentinos superam os obstáculos”.

“Mas no fundo, é justamente isto que nos ajuda a todos – italianos e argentinos – a sermos alegres a cada dia...”.



[todas as ilustrações são de Juarez Machado]